Sociedade 5.0: “A Alta Tecnologia ajudará o ser humano a ser, simplesmente, humano”

Quem nunca imaginou como seria a nossa vida daqui a alguns anos? Provavelmente, embalado por algum desenho dos Jetsons ou séries como Black Mirror, vislumbramos um futuro imensamente tecnológico, revolucionando tudo ao nosso redor. Mas o que muda de fato? Qual o papel da tecnologia e como ela influenciará a sociedade e os negócios? No bate-papo a seguir, com o especialista Carlos Piazza, líder do Grupo de Trabalho do Instituto Startups sobre o tema e que debaterá a Sociedade 5.0 no Congresso O2O Innovation Experience, temos uma visão mais clara do futuro que nos espera e como devemos nos preparar para ele.

– Como você define a sociedade do futuro?

É a sociedade 5.0, com forte presença da inteligência artificial. A alta tecnologia jogará o ser humano de volta ao lugar de onde ele nunca deveria ter saído: o de ser simplesmente humano. Será uma sociedade que transforma a utopia em distopia. Com a extrema abundância proporcionada pela tecnologia, há de se pensar qual é o papel do ser humano no contexto em que as inovações, fundamentalmente a AI, tomam as tarefas das pessoas.

– Quando fazemos uma associação entre futuro e tecnologia, uma das primeiras coisas que vêm em mente é a mudança constante. Como isso impactará os negócios?

É o que estuda o Darwinismo Digital. Certamente as empresas de hoje se preocupam e muito com um fator simples: o mundo da transformação digital. A velha pergunta agora parece fazer mais sentido: como criar valor quando tudo muda o tempo todo? A tecnologia ultrapassou o conceito de adaptabilidade humana bem como o intelecto humano. Sim, as plataformas tecnológicas poderão pensar mais do que todos os humanos juntos na face da Terra e criam alguns paradigmas éticos seríssimos, mas sabe-se que nada melhor do que a tecnologia para colocar à prova conceitos éticos. As máquinas não precisam de nenhuma ética, mas a sociedade dos humanos sim, e muita, cada dia mais.

– Como isso influenciará a estrutura das organizações?

Nesta nova forma de se realizar negócios, muita coisa muda. Não se precisa mais de líderes transacionais, que marcam o ambiente competitivo nas empresas. Necessita-se, agora, de líderes transformacionais, para realizar as transformações que chegam à velocidade da luz sobre as empresas. A velha forma de trabalhar, olhando para dentro, com um CEO transacional forte, com capacidades enormes de produção de resultados, agora dá espaço ao CTO – Chief Trust Officer, que trabalhará no conceito de criação de valor.

Há ainda o princípio do HCD – Human Centered Design, cujo foco é no ser humano, em suas necessidades, não mais nas necessidades dos acionistas de empresas. O lucro passará a ser guiado pela contribuição que as empresas podem dar à sociedade. Portanto, com isso, a forma de trabalhar muda. Não podemos mais ter funcionários, mas sim missionários, gente coligada e responsiva aos valores convergentes, não ao lucro a qualquer preço. Este movimento tecnológico muda as economias e isto muda a forma de se criar valor.

– As empresas irão se revezar na liderança de alguns mercados, considerando que nem todas se adaptarão a tudo tão rapidamente o tempo todo?

Exatamente isso. O Darwinismo Digital entende que o movimento é de adaptabilidade, e quem não conseguir se adaptar desaparecerá. Empresas do velho mundo, vamos dizer assim, são lentas, muito hierarquizadas, verticais, com organogramas gigantes, tudo o que não se pode ter para enfrentar a onda tecnológica que vem pela frente, onde as necessidades dos consumidores vêm em primeiro lugar. O conceito de UX – User Experience marca o tom de uma empresa mais responsiva à sociedade, mais participativa, mais ágil, extremamente mais voltada à ética compartilhada.

O próprio conceito de liderança atrapalha esta visão, uma vez que empresas de pensamento no passado ainda acreditam que ter milhares de clientes é importante. Não é mais. Muitas empresas ainda calculam o ROI – Retorno sobre Investimentos, quando deveriam já calcular o ROT – Retorno sobre Confiança. A confiança é o elo durável. Mas o processo, ainda muito distante, de se digitalizar tudo para se buscar inteligência baseada nos dados faz com que as empresas sequer conheçam o seu ∆CLTV. Isso é a variação da análise de ciclo de vida dos seus próprios clientes, calculado desde o início do relacionamento até o seu possível fim. As empresas estão anos luz atrás destes pensamentos, que já eram urgentes há mais de dez anos.

A velocidade exponencial de mudanças exige destas empresas uma velocidade que elas não conhecem. Ainda não conseguem pensar de forma digital, que é infinitamente mais complexo do que pensar de forma analógica. Elas não conseguem entender como as tecnologias podem ressignificar suas plataformas empresariais, transformando-as em empresas obsoletas em tempo recorde. Muitas serão pegas no tsunami de mudanças.

– Será o fim da hegemonia de empresas sempre consolidadas?

Há espaço para o aparecimento de outras com diferentes lógicas, com outras formas de pensar e agir. A disrupção traz surpresas todos os dias. As empresas unicórnios vêm para destruir lógicas com alta velocidade, transformando setores em algo obsoleto. Por outro lado, sabe-se que o mundo será pautado por organizações que se sustentam em plataformas tecnológicas. Muitas não conseguem entender e ainda confundem isso com TI, quando é assunto da liderança.

Muitas também vão conseguir se valer deste novo paradigma para se firmar em outras realidades, neste mundo VUCA como se chama. A arte da sobrevivência depende da análise dos ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos, combinado com a antifragilidade, que necessita de um comportamento que cria uma consciência de que há mudanças de vetores extremamente rápida e inesperada. As empresas vão ter que encarar a aleatoriedade com naturalidade e, ainda mais, como um fator benéfico, ainda deverão ter flexibilidade extrema para poder se valer do caos. Não é uma tarefa simples, mas as que conseguirem, permanecerão ativas.

– E como as startups podem se aproveitar desse cenário?

As startups são o sonho de consumo das empresas do velho mundo, vamos assim dizer. Elas representam uma liberdade que as empresas não têm, possuem visão de futuro, são fortes na forma de ver o mundo, já nasceram digitais, não têm as mazelas das velhas empresas, não dão força ao status quo, são mais responsivas etc. Elas poderão se beneficiar desde que se crie um ambiente de aprendizado constante e íntimo entre estas duas estruturas. Fazer uma empresa transnacional, um monólito plantado no chão ganhar uma velocidade que as startups têm, é algo apavorante para as empresas ainda com estilos de liderança preponderante da lógica do comando/controle.

Ao mesmo tempo, as startups não podem ser seduzidas a se parecerem com empresas do velho mundo, criando hierarquias, lógicas de status quo, resistências e outras coisas que vemos acontecer. O trabalho cooperado entre empresas do velho e do novo mundo é incrível, ajuda as empresas a buscarem um caminho mais pavimentado. As empresas do velho mundo aprendem como poderão ser mais livres, mais criativas, mais realizadoras e fundamentalmente como crescer 10 vezes, não só 10%.

– O profissional está preparado para essa nova realidade?

Falar de transformação digital é falar sobretudo do ser humano. Não se trata de olhar a tecnologia de forma isolada. Tecnologias vêm e vão, mas o que se tem de olhar é o benefício, o valor que elas criam para as pessoas, ao mesmo tempo em que se cria uma sociedade mais interconectada, com tudo de bom e de ruim que isto tem. Portanto, enxergamos com mais peso a nova sociedade que se forma. Para colocarmos um ponto crucial, é que tecnologias e a inteligência artificial roubam empregos, roubam rotinas, esse é o perigo. Quando pessoas escolheram fazer papel de máquina e nisto escolheram se parecer com uma de última geração, o máximo que conseguiram foi ficar doentes. Burnout agora é considerada uma doença, síndromes de self, matando mais que a cocaína no mundo todo, aumento do nível de suicídios agora entre jovens de 9 anos nas escolas, alguma coisa está muito desajustada. O ser humano parece que se perdeu no meio do caminho, tentando ser cada vez mais responsivo, cada vez mais produtivo, competitivo, criando um ambiente de insanidade no entorno.

– Como podem os profissionais se preparar para isso?

Entendendo o seu próprio propósito nesta vida. Mark Twain tem uma frase marcante neste contexto: “Há somente dois dias realmente muito importantes na sua vida, o dia em que você nasce e o dia em que finalmente entende por que.” Comemoramos somente o primeiro dia, quando deveríamos saber por que nascemos. Quando as máquinas tomarem de nós tudo aquilo que gostamos de fazer no lugar delas, haverá tempo para que possamos ser criativos, colaborativos exercitar a autoridade sobre os assuntos que realmente somos apaixonados, exercitarmos somente aquilo que desejamos para nós mesmos e para o próximo.

A GIG Economy, a nova economia formada por gente com forte propósito, independentes, malcriadas, muito contributivas, gente que quer morrer de trabalhar, mas que não quer mais emprego, chega. Então, percebe-se o quanto o ser humano está longe de suas próprias bases, por muitas vezes fazendo coisas que odeia, pelo conforto da garantia de se poder “pagar os boletos”, como estas pessoas fazem. Parafraseando a Ted Talker Geovana Donella, “quem tem propósito, faz tudo de propósito, não faz nada por acaso”.

– Em quanto tempo conseguiremos viver essa sociedade do futuro?

As mudanças estão em curso e num cenário de 20, 30 anos viveremos em um planeta irreconhecível. Parece muito, mas neste ambiente de aceleração exponencial o futuro chega aos olhos em tempos recorde. Quando as séries “Black Mirror”, “Years & Years” e “Altered Carbon” se parecem muito com a nossa vida é porque a ficção do futuro chegou até nós. Então, é como se diz: a sociedade do futuro será a sociedade da criatividade, justamente para que possamos vislumbrar nossos futuros possíveis, e dentro dele escolhermos nossos futuros preferíveis.

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