Digitalização Imposta. Lideranças debatem sobre os efeitos da pandemia: mudanças culturais, ressignificação organizacional e Inovação Aberta

Com o propósito de trocar experiências sobre as práticas de inovação em momento de crise, no qual se espera que delas venham soluções para demandas imediatas e um futuro de retomada econômica, o Instituto Startups, com apoio da Associação Brasileira Online to Offline, reuniu cinco executivos com perspectivas inovadoras no painel “Digitalização Imposta sociedade conectada, economia compartilhada e Inovação Aberta. Juntos, debateram um cenário de mudanças culturais e quebra de paradigmas, no qual empresas de todos os portes encaram a ressignificação organizacional em um tempo atropelado pela pandemia. Antes do novo coronavírus, modelos de empresas, organização e gestão mais tradicionais vinham se digitalizando de acordo com suas respectivas capacidades de reação e a velocidade ditada pelo macroambiente. Mas, e agora? Os convidados do encontro com a missão de inovar em grandes corporações compõem o panorama atual associado ao olhar de quem atua junto às companhias que já nasceram em berço digital.

Marcos CarvalhoPara contextualizar, o mediador da live, Marcos Carvalho, diretor de Estratégias da ABO2O e Instituto Startups, criou verbalmente uma timeline dos marcos tecnológicos que impactaram a vida em sociedade; desde o surgimento da internet (em 1969, no contexto bélico, que ganhou tração para o mercado mais de vinte anos depois, em 1995), passando pela “bolha.com” (que provocou alta e queda das ações de empresas tecnológicas na virada do milênio),  chegada dos Smartphones (em 2007), até a entrada Uber no Brasil (no final de 2014, trazendo o conceito de plataforma e uma série de inovações que transformaram hábitos de consumo e o comportamento social).

“Olhando para o passado e analisando previsões chegamos à expectativa de que em 2030 a Inteligência Artificial irá, finalmente, superar a inteligência humana. Se em 1997 um computador venceu pela primeira vez um humano (enxadrista campeão mundial) numa partida de xadrez e estima-se que ainda levará cerca de dez anos para uma máquina consolidar esse feito, dá para termos noção da jornada que a gente vem fazendo. De como e em que tempo ela afeta nossas vidas”, diz Marcos Carvalho.

O modo de vida mudou mas houve uma janela de adaptação. Diferente do timing da digitalização imposta, que queimou décadas de etapas para implementação de mudanças que estavam em curso. Com esse paralelo, Marcos Carvalho dirigiu a primeira pergunta às lideranças de inovação de grandes empresas com décadas de existência (Nestlé, Leroy Merlin e Natura), que já vinham em processo de transformação digital e em tempos de Covid-19 operam em beat acelerado.

 

“Como manter uma organização com tantos anos de trajetória relevante em um mundo em constante transformação?

 

Rodrigo“Pela capacidade de se reinventar”, responde Rodrigo Spillere, Gestor de Inovação da Leroy Merlin. “Depois da Segunda Guerra Mundial, o fundador dessa centenária empresa, que é hoje um dos maiores grupos da França e do mundo, abriu sua primeira loja; um carrinho de supermercado com o qual ele ia de porta em porta oferecer objetos do pós-guerra que reformava para vender”, conta o executivo. “Quando se pensa em inovação é comum a associação com tecnologia. Mas ela está ligada à capacidade de a empresa ser flexível e à cultura. A Leroy Merlin vinha em processo de transformação digital há cerca de cinco anos. A crise do novo coronavírus acelerou tudo. Buscamos flexibilizar o trabalho e oferecer boas ferramentas de comunicação para isso, sempre de forma transversal. Além de centenária, a empresa está espalhada no mundo inteiro. Como cada País tem autonomia para suas decisões, costumo dizer que meu time tem cerca de 10 mil colaboradores, que é o número total de colaboradores no Brasil”, conclui Spillere.

 

Bruno Oliveria“Essa pergunta sobre como empresas centenárias seguem dialogando ao longo do tempo e se adaptam às mudanças é pertinente. Para mim essa questão de ambiente e contexto faz muito sentido; sou biólogo de formação. Já venho com esse chip na cabeça, o contexto está sempre selecionando características que vão permanecer vivas diante das pressões desse ambiente. A história da Nestlé é um exemplo; uma empresa com 150 anos, que também surgiu para atender uma demanda da sociedade pós-guerra na Europa, quando a desnutrição se tornou generalizada e a Nestlé desenvolveu uma formulação nutritiva para lidar com esse problema”, conta Bruno Oliveira, Head de Inovação e Novos Negócios Nestlé.

 

“Manter olhar voltado ao consumidor está na gênese da Nestlé, presente no Brasil há quase 100 anos, com uma diretriz de inovação e cultura para dialogar com a sociedade”, explica o executivo que há cerca de cinco anos desenhou com sua equipe o hub de inovação da empresa que ocupa o primeiro lugar do ranking 2020 “Global 2000maiores empresas de alimentos e bebidas do mundo”, da revista Forbes. “Primeiro focamos no portfólio de produtos e em plataformas que atendessem demandas do curto prazo. Após o primeiro ano do hub, olhamos para o consumidor e iniciamos movimentos de inovações adjacentes ao core business, complementa Oliveira.

 

Luciano AbrantesJá a Natura foi criada há quase meio século com uma loja física em São Paulo (capital), onde os produtos eram produzidos e comercializados. “De lá para cá evoluiu, não só nos produtos, mas também nos modelos de comercialização, até que enveredou para a venda direta. Na última década se reinventou. A inovação está no DNA da Natura: temos quatro grandes estruturas de inovação”, conta Luciano Abrantes, CTO & Digital Innovation da Natura.

‘A primeira estrutura de inovação é a de produtos e cosméticos onde está o P&D e realizamos pesquisa e desenvolvimento de produtos cosméticos, incluindo a prospecção de ativos da Amazônia. A segunda comporta uma das maiores e mais modernas estruturas logísticas da América Latina. Depois vem a inovação em business (modelo de venda direta sempre requer inovação, seja ela incremental ou disruptiva). A caçula é a estrutura de inovação digital que está sob minha liderança” explica Abrantes.

 

Sob o chapéu digital há três avenidas, sendo uma delas o Natura Startups, que permeia toda a estrutura de inovação da companhia que faz uso de um modelo multifuncional. Eu não atuo como líder, sou o orquestrador. Voltando à pergunta, posso dizer que a Natura já enfrentou outras crises e a inovação é fundamental nesses momentos. Na quarentena aceleramos todos os programas de inovação (de natureza incremental, disruptiva ou aberta). Vínhamos em processo de digitalização para diversos públicos, mas na pandemia avançamos mais rápido. A consultora de beleza Natura está no centro de nossas decisões. Quando falamos de digitalização da Natura destacamos nosso canal online, embora seja mais ampla. Nosso business de plataformas forma um ecossistema; consumidores e seus inputs orientam novas soluções conectados às nossas consultoras; reunimos estrategicamente a força de vendas, de colaboradores, fornecedores e parceiros, conclui o executivo.

 

Mundo VUCA na pandemia: as definições de volátil, incerto complexo e ambíguo  foram atualizadas

 

Ao partir da crise sanitária como uma flecha, a nova realidade rompeu barreiras e acertou em cheio o “X” da rotina empresarial no “Mundo VUCA, como bem situou na segunda parte da live o mediador Marcos Carvalho, em alusão à sigla que os americanos usam para descrever a volatilidade (volatility), a incerteza (uncertainty), a complexidade (complexity) e a ambiguidade (ambiguity) do universo em que vivemos, em diversas situações, incluindo contexto de guerra. Há quase uma década entrou no competitivo mundo dos negócios. Se há um momento em que o mundo muda em velocidade vertiginosa e destino incerto, com muitas possibilidades de resposta para uma mesma questão, esse tempo é agora, complementa.

 

Marco CavalloOs convidados à frente de organizações de grande porte confirmam que o home office, por exemplo, se tornou realidade para a maior parte dos colaboradores entre a decisão tomada em uma sexta-feira e um amanhecer de segunda-feira durante a quarentena; uma implementação relâmpago, de forma sistemática, inimaginável meses atrás. Assunto oportuno para o mediador Marcos Carvalho introduzir o seu quase xará para comentar as especificidades de atender corporações nativas digitais e as grandes estruturas em processo de transformação digital: Marco Cavallo, Head of Partnership Latam da Adjust, além de colunista Cio.com. “Eu trabalho na Adjust, empresa especializada em performances de aplicações, que nasceu há oito anos, já voltada para o mundo novo; que é o mobile. Lido com parceiros que vivem em simbiose com o ambiente digital, como Google, Facebook, Twitter. O que vejo de diferença ao atender grandes organizações e nativas digitais é a cultura”, complementa.

 

O especialista endossa a fala dos demais participantes: “a inovação nasce da cultura da empresa; das pessoas e é possível por meio das tecnologias. Com base no que compartilharam nessa live, acho que as três grandes empresas acertaram ao alinhar suas culturas e souberam trabalhar com informações sobre o mercado”. Cavallo ainda aponta que “o papel da informação é até mais sapiente do que o da tecnologia. Segundo dados Visa, no primeiro quarter deste ano, na América Latina, 13 milhões de pessoas fizeram sua primeira compra online. O Mercado livre aumentou sua base de clientes em 5 milhões em dois meses. Isso mostra a capacidade que a tecnologia tem de facilitar a adaptação a uma realidade nova e o que é exponencialidade”, exemplifica

 

Inovação aberta e o resgate do touch

 O moderador fez um recorte pertinente sobre o papel da inovação aberta nesse momento em relação à postura das corporações em anos anteriores: ”as organizações tradicionais inovavam para obter a posse de patentes. Mesmo que a empresa não fosse utilizar as informações não as abriam para o mercado”, comenta. Já no ecossistema de cultura aberta, o compartilhamento de informações é determinante.

“Muitas vezes, empresas concorrentes se tornam parceiras e criam um bem comum, uma imagem corporativa forte e até produtos juntas. Estimulam o mercado e contribuem com a sociedade, como no caso das ações realizadas pelas três corporações nesse momento de crise que os participantes mencionaram“, complementa  Marco Cavallo.

 

A marca Nespresso da Nestlé se uniu à Stella Artois da Ambev na plataforma “Apoie um Restaurante, desenvolvida para apoiar financeiramente bares e restaurantes brasileiros, que devido à paralisação durante a crise perderam faturamento da noite para o dia, enquanto Nestlé apoia a categoria de confeitarias e cafeterias. A Leroy Merlin disponibilizou seu Bricolab (espaço utilizado para confecção de artigos e cursos antes da crise sanitária) para fabricar, em impressoras 3D com mão de obra voluntária, cerca de 12 mil EPIs (equipamentos de proteção individual) a serem doados os profissionais de saúde no combate à Covid-19. O programa Natura Startups está com camadas em aberto, com foco em inovação social, para apoiar gestantes nesse momento de pandemia. Para Cavallo, os aprendizados nessa fase de aceleração atual, nos colocam à frente da indústria 4.0 (marcada por integração entre cadeias dada pela convergência dos mundos físico e digital). “Vivemos a revolução industrial 4.5. Quando voltarmos ao normal, e vamos voltar, será hora de focar nas expectativas do consumidores. Rever decisões tomadas às pressas por ocasião da crise. Inovadores têm uma missão bonita na interseção entre neofilia (amor ou interesse por novidade) e neofobia (aversão a tudo que é novo, moderno); uma situação muito nova e nada familiar”.

 

Marcos Carvalho, anfitrião do encontro virtual e defensor incansável do diálogo como fonte para novas ideias, agradeceu a oportunidade de compartilhar experiências e disponibilizou esforços e conhecimentos da equipe Instituto Startups que, comprometida, integra o setor privado, governo, universidades e sociedade civil para fomentar conhecimento e ajudar o mercado a ter um protagonismo positivo, construído em rede, nessa saga recém-configurada. Bruno Oliveira encerra com com uma citação que reflete o tom consensual da conversa: “gostaria que fosse minha essa frase, mas é do futurista Tiago Mattos, que diz: não adianta a gente pensar sobre o futuro para resolver o presente com ferramenta do passado. Ou a gente está pensando no presente com cabeça de futuro ou a gente está descolado da realidade. Há muitas questões latentes no presente para resolvermos em rede, juntos”.

Assista ao painel na íntegra:

https://youtu.be/Dfu9cNZcsm4

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